Preguiça de continuar sendo quem tenho sido
Seguir fazendo o mesmo
ou caminhar a esmo?
Em nenhum dos casos parece fazer sentido.
-
Procure isso!
-
Entradas Recentes
-
Links
Preguiça de continuar sendo quem tenho sido
Seguir fazendo o mesmo
ou caminhar a esmo?
Em nenhum dos casos parece fazer sentido.
- Ei calma aê! Só quero conversar com você!
- Então, eu não posso conversar…
- Por que não pode?
- Eu tenho um problema, eu tô tipo, com a boca tooooooooda bichada por dentro, tá cheio de pereba, saca? Saindo pus…
Nunca me livrei de alguém tão rápido. Vou usar sempre.
- Que bonito seu desenho! Quem é essa princesa?
- É você! – respondeu com um sorriso largo a menininha meiga à minha frente – Agora eu vou colorir!
E sem vacilar, sem olhar para o lado, imbuída de sua missão com grande firmeza, escolheu as cores numa convicção inabalável: pintou a grama de verde, o vestido de rosa, o sol e a coroa de amarelo, as nuvens de azul, o cabelo de vermelho e… Opa! franziu a testa, ergueu a cabeça com uma contradição estampada no rosto e fitou meus cabelos como se estivesse tentando calçar mentalmente um elefante com o sapatinho de cristal da Cinderela. Depois de alguns segundos de tensa observação, deu de ombros, abaixou novamente a cabeça e continuou a colorir com a mesma convicção anterior, como se dissesse: “é, não tem jeito, vai ter que ser assim mesmo”.
Princesas são tradicionalmente loiras (vide Irmãos Grimm, Perrault, Basile, Andersen, etc). Mas não é a mudança, agora muito constante, na cor dos meus cabelos que anuncia que não me cabe mais esse papel, papel que já gostei tanto de interpretar. A vida é assim, uma hora a gente perde a coroa pra pegar o caldeirão. Só lamento ainda não ter uma herdeira dos meus cabelos dourados de outrora pra ocupar meu antigo trono do mundo das fadas.
Fiquei sozinha no show do Pearl Jam. Turistei sozinha no Rio de Janeiro. Me virei sozinha quando precisei. Nada demais, já fiz coisas do tipo antes. Mas dessa vez foi difícil até perceber que estava sozinha com tanta gente interessante ao redor, disposta a atender minhas necessidades quando solicitei, sem que eu precisasse continuar ao lado depois de conseguir o que queria. Muito cômodo. E, principalmente, chegou a ser estranho me dar conta de que estava sozinha enquanto me achava tão boa companhia. No final das contas, ouvindo ao vivo as músicas que escutava pela MTV quando criança, constatei que, contrariando toda a minha angústia infantil da época em que conheci Jeremy e Alive, angústia esta justificável porque crianças não sobrevivem sozinhas, sozinha eu fiquei, mas ainda estou viva.
Abri a porta do consultório e quem estava do lado de fora não era a paciente agendada, tampouco consegui encontrar seu rosto numa rápida pesquisa em meu arquivo mental de pacientes em atendimento.
- A senhora deve estar procurando a Mara, né? – conclui.
- Não, acho que é você mesmo que eu to procurando, me falaram que era uma novinha de cabelo vermelho.
Bacana, pensei. Agora sou oficialmente ruiva.
De uns tempos pra cá já não consigo escrever coisa alguma direito porque qualquer coisa que escrevo de relatório a recado sai tudo atropelado como se esse monte de palavra pulasse sem permissão do meu peito de forma desenfreada do mesmo jeito que acontecia quando eu era uma criança insone e afobada que tentava em vão contar carneirinhos na madrugada e sempre passava a noite inteira acordada e impotente diante da manada revoltada e desobediente que se negava terminantemente a ficar em fila e pulava a cerquinha branca em debandada correndo todo mundo junto de uma só vez e eu lembro disso agora e me pergunto que tipo de criança não consegue controlar carneirinhos em sua própria mente e que tipo de adulta não consegue organizar seus pensamentos de forma decente com palavras ordenadas uma de cada vez e fico desorientada vendo que desaprendi a usar a vírgula sendo que fui ensinada de que a vírgula serve pra gente poder tomar o fôlego no meio de uma frase e no fundo eu bem sei que se não consigo mais tomar fôlego no meio dessa minha fase é porque foi sem fôlego que ele me deixou no fim desse texto tão longo que eu também sei que nem cabe mais vírgula e já passou da hora de um ponto.
Esses dias alguém entrou no ônibus com o perfume de Rio das Ostras. Foi só colocar os fones de ouvido e fechar os olhos que eu estava feliz da vida lá de novo.
E eu juro que não era fedor de cecê, gente. Era perfume bom demais da conta.
- O que vocês sentem quando escutam essa música? – pergunta a professora.
- ÓDIO! – responde uma colega para fazer graça, entoando em sua voz todo o sentimento que ela afirma ter em sua resposta.
- Essa música é um lamento. Gostaria que antes de dançar, vocês sentissem ela como se estivessem pensando em algo que vocês queriam de ter, mas não tem.
- Não gosto desse sentimento – respondo – é triste.
- Tá, não precisa fazer como uma coisa triste… pensa: “ah, como seria bom se eu tivesse… tivesse...
- … aqueeeela roupa da Ju Marconato?” – respondo, também pra fazer graça, citando o desejo de quase todas as presentes na sala, desejo que eu mesma definitivamente não compartilho… prefiro as roupas da Zoe Jakes.
- Isso! Ou aquela viagem pra Paris… Ah se eu tivesse…
Aceito a tarefa e fecho os olhos para sentir a música, mas o que aparece não tem forma de roupa alguma, nem mesmo emoção de viagem. O lamento soa dentro de mim como minha própria voz perguntando:
- Por que você é assim?
Ao que tenho como resposta:
- Eu não sei.
Antes de me dar um beijo e ir embora.
Mas ela tinha razão quando disse que isso não precisa ser triste.