Estava em uma festinha da UFES e não me recordava de que festinhas da UFES eram tão cheias de pré-adolescentes, talvez porque na época em que as frequentava eu mesma era uma pré-adolescente. A noite tinha tudo pra ser um completo fiasco: uma bandinha tocando hard core, a exibição de um documentário ruim sobre o hard core no Espírito Santo, todas aquelas crianças do hard core que se acham super-originais por se vestirem e se comportarem de forma padronizada estavam lá vestindo-se e comportando-se de forma padronizada, enfim, programa de révi, só que em Vitória.
Mas algo inesperado aconteceu. Em um dado momento o hard core que preenchia o ambiente foi inexplicavelmente substituído pela música El Arbi do Khaled. Uma tempestade de areia abateu-se sobre a multidão juvenil e, eis que do meio dela, surge um homem com um turbante na cabeça, montado em um camelo branco, vindo imponente em minha direção. Seu nome era Said* e eu já o tinha visto antes, mas desta vez ele chamou minha atenção, não pelo turbante ou pelo camelo que montava, mas por usar uma camisa dos Beatles e ostentar em sua mão direita uma latinha de Brahma, enquanto todos na festa bebiam Skol (a parte da camisa e da latinha é verdade, o resto é licença poética). Ao me deparar com esta aparição, percebi que tudo na vida tem um propósito e agradeci imensamente pela crise de identidade cultural que tive anos atrás, na certeza de que agora todas aquelas aulas de dança do ventre teriam, afinal, um propósito. Maktub! Estava escrito!
Engatamos em uma conversa animada até que meus amigos estrategicamente desapareceram. A conversa animada, percebendo a deixa dos meus amigos, decidiu também desaparecer súbita e estrategicamente, sendo substituída por um silêncio ensurdecedor, que fazia com que me sentisse mais pré-adolescente que todos os pré-adolescentes ao redor. Sentia aquele frio na barriga, como se meu estômago tivesse chupado uma bala halls preta e agradeci imediatamente por estar bebendo cerveja e não coca-cola, certa de que me transformar em uma mulher bomba não era a melhor forma de mostrar meu apreço pelo povo do deserto.
Sentia aquela insegurança juvenil me abarrotando de perguntas que não paravam de eclodir em minha cabeça: “Será que ele vai me beijar agora?”, “Será que vai dar uma desculpa, sair e me deixar sozinha?”, “Será que ele carrega bombas embaixo da camisa dos Beatles e pretende um ataque terrorista ao imperialismo do hard core?”, “Será que lembrei de escovar os dentes antes de sair de casa?”, “Será que… oops!”
#SMACK#
Me senti ainda mais pré-adolescente, como se estivesse em uma daquelas brincadeiras deliciosas de pera, uva, maçã, salada tabule mista. Ele me convidou para ir ao seu aprtamento comer o quibe que sua mamãe havia feito, e eu, que já estava pra lá de Marrakech, decidi deixar minha pré-adolescência pra trás na festinha da UFES e seguir com ele. Chegando lá, ele pegou o violão para demonstrar suas habilidades manuais e eu comecei a pensar que adoraria passar a noite toda ali. Quando ele começou a tocar Beatles, eu percebi que na verdade adoraria passar a semana inteira, eu o chamaria de “habib” e aprenderia a fazer esfirras e quibes pra ele. Tocou mais uma dos Beatles e eu já estava certa de que tudo o que sempre quis da vida era um casamento árabe. Eu entraria na mesquita com uma roupa de dança do ventre branca, sacolejando ao som de Tony Mouzayek, que tocaria ao vivo na cerimônia, inch’Allah! Foi quando ele decidiu tocar Pink Floyd, e eu já estava escolhendo os nomes de nosso casal de filhos, Ali e Jalihah, e de nossa cachorrinha, Shakira. “Será que ele iria querer uma segunda esposa?”, pensei, “Ah! Quem se importa! Desde que continue tocado Pink Floyd…” Quando ele decidiu demonstrar sua habilidade de sincronia manual e labial tocando violão e me beijando ao mesmo tempo eu percebi que era chegada a hora da visita estratégica ao banheiro para checar se estava tudo em ordem, sutiã combinando com a calcinha, essas coisas. Depois da rápida verificação, retornei ao quarto e percebi que ele tinha posto o violão de lado. “Ebaaaaaaaaaaa!”, pensei. Me aproximei da cama, sentei-me delicadamente ao seu lado, meu coração estava batendo tão rápido que fiquei com medo de me transformar em um beija-flor. Passei a mão suavemente por seus cabelos sedosos, aproximei meu rosto do rosto dele e…
- Ahn?… Said?
- ZZzzZZzzZZzzZZzzZZzz…
Para ler ouvindo
* Alguns nomes foram alterados para preservar a identidade das pessoas