Ela era formada por uma Universidade Federal em um daqueles cursos taxados como “curso de maluco”. Era frequentadora assídua de festividades e encontros de estudantes, daqueles que as pessoas diziam que “só dá maluco”. Preferia não se entorpecer com drogas ilícitas, apesar de estar cercada por pessoas que o faziam. Entretanto, bebia agressivamente em todas as festividades e reuniões de amigos a que comparecia. Depois de uma dessas reuniões, acordou para encarar um dia entediante de trabalho na cidadezinha do interior em que fora contratada há pouco tempo.
Lá chegando, encontrou uma convocação para comparecer, a trabalho, a uma tarde agradável de audiências de crimes de porte ilegal de drogas com a Juíza da cidade. Sem entender o que faria lá, e com preguiça de tentar entender qualquer coisa com aquela dor de cabeça e aquele gosto de guarda-chuva na boca, encaminhou-se ao Fórum.
Ao chegar, foi barrada e insultada na portaria pelo guarda que, sabe-se lá por que (pelas roupas urbano-alternativas, pela cara de alcóolatra sono, pelo jeito entorpecido distraído de andar…), a confundiu com um dos acusados. Depois de esclarecer a situação, de ouvir as desculpas incrédulas e assustadas do guarda e de passar em poucos segundos de “garota” a “Senhora”, foi encaminhada à audiência para se deparar com as, igualmente incrédulas e assustadas, boas-vindas da Juíza, descobrindo que fora convocada para dar suporte técnico ao “sabão” moralista que esta pretendia passar nos acusados.
Pânico.
Sabia que não conseguiria responder a esta demanda. Não conseguiria elaborar um discurso moralista do nada. Não depois de passar a noite anterior de forma nada moralista, bebendo exageradamente na companhia de pessoas também nada moralistas. Respirou fundo e convenceu-se de que conseguiria elaborar algo a partir do que a juíza dissesse, não havia motivo para pânico. Seria fácil… Sim, seria… Não fosse o Gerador de Improbabilidade Infinita que estava ligado naquele Fórum, seria.
O primeiro caso, assim como quase todos os outros, era de posse de um cigarro de maconha. A porta abre e entra o acusado. Ela olha nos olhos dele, ele nos dela. O improvável: ela o reconhece. O infinitamente improvável: pelo risinho contido nos lábios dele ao vê-la, pôde perceber que ele também a reconhecia. Vêm à mente a lembrança daquela festinha na universidade onde ela, bêbada, topeça e derrama cerveja nele.
Tinha vontade de se transformar em um avestruz. Tinha vontade de desaparecer dali. Infelizmente, sabia que aquilo não era um filme do Harry Potter e que, mesmo que fosse, e que a cerveja em questão fosse amanteigada, o guarda mau-humorado não teria deixado ela entrar com uma varinha naquele Fórum. Não adiantava chorar pela cerveja derramada, então, tentou fazer o que pôde.
Meio que por conta da falta de hábito em defender esse tipo de causa, meio que por conta da certeza de que o acusado não levaria uma palavra sequer de sua fala moralista a sério, seu discurso saiu quase como se dissesse que não tinha nada de errado no cigarrinho de maconha do garoto. Depois dessa, e de mais duas audiências onde sugerira à Juíza que não havia motivos para mandar os acusados para a reabilitação e que só uma advertência já seria o suficiente, teve que ouvir a seguinte pergunta:
_ Dra., a Senhora faz uso de drogas?
Achou aquilo tudo tão idiota que quase respondeu:
“Claro! A Senhora não?”
- Claro que não!- Respondeu, contendo-se.
Foi informada que o próximo acusado era de sua cidade natal e que alegava não ser usuário, apenas estar no mesmo carro, de carona, com alguém que portava a droga.
Mais pânico.
Temia ver entrar outro conhecido por aquela porta. Mas felizmente era um estranho que, pelo menos que ela se recordasse, nunca havia a visto bêbada. Divertiu-se com o pensamento de que, se a audiência fosse com a pessoa que efetivamente portava a droga, provavelmente o reconheceria.
Lembrou-se de todas as vezes que pegava carona com aquele seu amigo “da tribo da paz”, e no risco que correu nesses episódios sem se dar conta. É lógico que ela tinha motivos para acreditar na história do garoto. A Juíza não.
Por um instante achou que estivesse de frete para sua avó que dizia: “quem com porcos anda, farelo come”. A Juíza era impassível ao afirmar que quem é pego junto à alguém com porte de droga, invariavelmente também faz uso e, sendo assim, também precisa de reabilitação (?!?), mas o garoto acabou saindo de lá também apenas com uma advertência.
Ao fim daquela agradável tarde, despediu-se da autoridade legal que, com um olhar severo, dava a certeza de que, se ela a convocasse novamente, seria para se sentar do outro lado da mesa. Sentia-se idiota com este pensamento, mas não saía de sua cabeça que a próxima carona que pegasse, dependendo das circunstâncias, seria direto para a reabilitação.
- But I won’t go, go, go!
Para ler ouvindo.
*A história acima é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.