Se tem uma coisa que odeio em cachorros pequenos é a mania de latir ininterruptamente pra tudo o que se move ou para tudo o que eles imaginam que se move ou não. Tenho um ódio particularmente grande dos poodles e dos pinchers, e sempre preferi criar huskys siberianos lindos, grandões e calados. Isto, até o dia em que as forças que regem o Universo decidiram castigar meu racismo canino com a triste morte de todos os meus amados huskys e a adoção, por parte de meu pai, de um casal de irmãos vira-latas de linhagem um tanto quanto inusitada: filhos de uma puta poodle e de um fox paulistinha. Frida e Ringo são seus nomes, para que fique bem claro que os dois são muito belos.

Danny DeVito e Arnold Schwarzenegger: irmãos gêmeos
Ringo e Frida: irmãos gêmeos
Se você imaginou que algo que saia metade poodle, metade fox seja, no mínimo, muito barulhento e irritante, está absolutamente certo. Na verdade acredito que as forças que regem o Universo intentavam presentear-me com uma mistura de pincher com poodle, mas o pincher escolhido no momento cru(s/c)ial devia estar ocupado latindo para alguma coisa, atrapalhando os planos.
Ontem eu estava com a mais puta das dores de cabeça, daquelas que não passam por nada, que fazem qualquer ruído, por mínimo que seja, explodir uma bomba atômica dentro de sua caixa craniana. Foi quando Frida decidiu mostrar o valor de sua herança genética: começou a latir insandecida e ininterrupitamente dentro da cozinha. Fui até lá e briguei com ela. Não adiantou. Briguei novamente. Ela deitou-se no chão com as perninhas abertas, mas foi só virar as costas que começou a estourar mais bombas em minha cabeça. Sentia tudo estremecendo a cada latido, a pressão saindo de meus ouvidos, a tonteira insuportável, a sensação nítida de que estava começando a ficar surda, o que misteriosa e surpreendentemente me deixava feliz naquele momento.
Coloquei a semi-poodle insandecida na varanda junto a seu pote de ração, achando que tinha fome, mas ela voltava para a cozinha a latir. Olhei ao redor e tudo estava justamente como deveria estar. Verifiquei embaixo do fogão, dentro do armário, atrás da geladeira, mas nem sinal de qualquer coisa (rato, gato, bicho-papão) anormal. Coloquei-a novamente na varanda e fechei a porta da cozinha. Ela disparou como um foguete ladrante, dando a volta e entrando novamente pela sala. Coloquei-a do lado de fora e fechei também a porta da sala, mas ela continuava a mostrar que seus pulmões são dígnos de campeões olímpicos de natação. Peguei o rolo de jornal, ferramenta de instrução canina, e a ameacei. Não adiantou. Bati com o rolo de jornal, o que também não teve efeito. Outras pessoas tentaram persuadir a semi-poodle desvairada a calar a matraca, o que foi igualmente ineficaz. Ela parecia decidida a me matar naquele dia. Já vislumbrava meu atestado de óbito escrito “ataque canino por excesso de sonorização rítmica elevada”. Só não entedia a motivação do homicídio e a cada momento que passava, estava menos disposta a entender.
Já somavam-se cerca de duas horas e meia de explosões atômicas ladrantes em minha cabeça, quando decidi trancá-la no banheiro (a cachorra, não a cabeça). Fiquei com pena e tirei-a de lá em menos de 2 minutos, ao que ela saiu em disparada com sua demosntração de potência vocal. Decidi levá-la como presente de grego para a casa de minha tia, no andar de baixo, que adora a semi-poodle, com a esperança de que lá ela esquecesse o motivo do escândalo. Chegando lá ela não latia, mas recusava-se a ficar, correndo de um lado para o outro e tentando fugir de todas as formas, como se sua vida dependesse de escapar para o andar de cima e latir até a morte (minha ou dela). Cerca de 10 minutos depois, eis que ela escapa e volta a latir em sua tentativa de homicídio cruel. Chorei, esperneei, argumentei, esbravejei, gritei, bati com o jornal, me descabelei, enfim, cheguei ao ponto de parecer mais desvairada que a cachorra. Ela conseguira seu intento: deixou-me louca. Estava a ponto de bater nela com o chinelo pois já faziam mais de 4 horas de latidos agudos e ininterruptos ressoando nos azulejos da cozinha e nas placas ósseas de meu crânio. Foi quando minha mãe chegou do trabalho e olhou para a cena: eu estirada no chão, descabelada, coberta por lágrimas e com uma caixa de dorflex na mão, Frida latindo sem parar a olhar para o nada.
- Que foi Frida? Papai deixou a sacola de supermercado em cima da pia? Quanta bagunça, né? Pronto! Tá vendo? Já guardei!
O bombardeio cessa subitamente, Frida abana o rabinho e vai para sua almofada dormir. E foi assim que descobri que minha cachorra sofre de TOC.


5 respostas Até agora ↓
lorena // Julho 8, 2008 às 11:48 pm |
hahahahahahaahahahahaahahahahahahahahahahahahahahahhahahahauuhauhuhauhaushaushauhau!
piada óbvia: frida já entrou no seu quarto?
bjo
giugava // Julho 9, 2008 às 12:31 am |
auhauhahuauhauhauhauhauhauhauhuhaauhuhauhauhauhauhauhauha… desculpa ae amore, mas essa foi foda!
e sem comentários quanto a isso…: “ataque canino por excesso de sonorização rítmica elevada”
bjos ae
Vinicius Langa // Julho 10, 2008 às 1:33 am |
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
se deu bem no quesito cachorro…
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Pit // Julho 14, 2008 às 4:40 am |
dramáááática!!!
e o pior é que vc, ainda assim, ama esse belo animal!! rs
Ana Paula // Outubro 7, 2008 às 9:14 am |
bicho, e no melhor uso da palavra bicho, tu é mais loka que a cachorra…
hahahahaha
TOC foi um final digno da coisa, e já sei pq vc não consegue escrever um livro: pq ta com a maldita idéia fixa (veja Machado de Assis, rs). A idéia de escrever uma única história com início, meio e fim. Seu livro tem de ser de contos, mulé!