Quem me conhece sabe que eu gosto de trabalhar em hospital. Acho engraçado quando as pessoas me falam de seleção pra psicólogo em empresa de consultoria, de vaga no Detran, essas coisas. Tipo, é o mesmo que sentir uma dor no dedão do pé e procurar um cardiologista. Meu negócio não é dedão do pé, meu negócio é hospital, me formei pra isso.
É claro que, como a vida não é um mar de rosas, eu não trabalho em hospital, trabalho numa secretaria de assistência social, o que não é problemático já que tenho capacitação e perfil pra isso também. Mas se o mundo fosse perfeito eu teria me formado e arrumado emprego em um hospital. Mentira, se o mundo fosse perfeito mesmo eu teria nascido linda e milionária na Irlanda.
Não que eu esteja insatisfeita com meu trabalho atual, mas meu salário é horrível, se eu soubesse que eu ia ganhar só isso depois de 5 anos de estudos em uma boa universidade eu teria escutado meus pais. Mentira, não teria não, eu tinha 16 anos, só escutava cantores de rock naquela época. Mas a questão é que percebi que não vai dar pra ir pra Irlanda com meu salariozinho de merda psicóloga e, como trabalho apenas meio período (part time, meglio di niente…), estou tentando arrumar um segundo emprego aqui pra fazer um seguro desemprego irlandês pra mim mesma.
Aí que sexta-feira ligaram aqui pra casa:
- Alô, poderia falar com a Penny?
- Sim, sou eu mesma.
- Penny, aqui é do Hospital Luterano*, nós estamos fazendo uma seleção e gostaria de saber se você tem interesse em participar.
- Claro que sim! Quando?
- Segunda-feira, às 9h no setor de recursos humanos do hospital. Você vai procurar a Jocenize*.
O Hospital Luterano é a uma quadra da minha casa (hipocondríaco só mora perto de hospital, pode reparar!), e tipo, é um lugar foda pra se trabalhar, pelo que já ouvi, principalmente por contratar psicólogo para meio expediente, o que me permitiria acumular os dois empregos. Deixei meu currículo lá várias vezes e por todos os meios possíveis, mas nunca recebi nem e-mail, quem dirá um telefonema. Não tenho QI.
Nem precisa dizer que vibrei com a possibilidade de trabalhar lá, mas vibrei mais ainda com a lembrança que este evento me trouxe da época em que acabara de me formar e estava desesperada desempregada. Vibrei de medo, tremi. Enfrentar processo seletivo nunca foi comigo, só consigo emprego por meio de prova. Processo seletivo me deixa nervosa, eu suo frio, tremo, entro em pânico, não consigo falar, não consigo respirar, desmaiar eu consigo, já aconteceu uma vez, mas não consigo o emprego. Esse período de recém-formada foi terrível pra mim e só de pensar em processo seletivo, mesmo que não precise do emprego, como é o caso agora, eu começo a sentir tudo de novo.
Lembrei que tinha o fim de semana inteiro pra me preparar. Fui no salão, fiz unha, cabelo e sobrancelha, peguei meus textos de psicologia hospitalar, há tanto tempo abandonados, pra dar uma segurança mais teórica, não consegui dormir nem comer o fim de semana inteiro, mas quem precisa dormir ou comer? Só sei que naquela segunda-feira chuvosa, às 8:40h da manhã, lá estava eu na portaria do setor administrativo do Hospital Luterano, linda e loira, impecável! Qualquer um me contrataria só de olhar, e era o que, lá no fundo, eu esperava que acontecesse, porque se começassem a perguntar muita coisa eu sabia que ia sair do setor de recursos humanos direto pra ala de psiquiatria e doenças do sistema nervoso.
- Olá! Eu gostaria de falar com a Jocenize.
- Jocenize?
- Sim, tenho uma entrevista marcada às 9h.
- Entrevista?
- Sim.
- Que tipo de entrevista?
- Entrevista para uma vaga de psicóloga. Aqui é a portaria do setor de recursos humanos, né? - Já conhecia, dos muitos currículos que entreguei.
- Sim, é aqui sim, mas aqui não tem Jocenize não. Não é Eristelma*?
- Não, o rapaz que me ligou falou para eu procurar Jocenize.
- Rapaz?
- É - já irritada com ele repetindo o que eu dizia com interrogações.
- Moça, não tem nenhum rapaz trabalhando no recursos humanos daqui não. Tem certeza que te ligaram do Hospital Luterano?
- Tenho, ele disse Hospital Luterano! Esse é o único Hospital Luterano da cidade, né? Não tem nenhuma… ahn… ah… ok, desculpe, deve ter sido um trote.
Nesse momento, como uma bigorna que caía sobre minha cabeça, lembrei-me de ter mandado meu currículo para o Hospital Luterano de uma outra cidade há cerca de 2 meses atrás, pois ouvi dizer que eles estavam com uma vaga em aberto, mas nem tinha esperanças que me ligassem ou contratassem por eu morar longe e também não estava muito animada com a vaga pelo mesmo motivo. Ou seja, a menos que eu possuísse um meio de teletransporte, tipo a Nave Coração de Ouro, tinha me dado mal.
Não sabia se ficava feliz por ter me livrado do processo seletivo, ou se ficava triste por ter perdido uma oportunidade de mudar de cidade e de emprego. Mentira, eu sabia sim, estava triste por ter perdido a oportunidade, mas mudando de cidade, mudando de emprego, mudando de país, com o curso de graduação que escolhi vou continuar sendo uma laureata precaria, seja como psicóloga no Brasil ou como bartender em Dublin. Falando nisso, depois desta confusão estou esperando que alguém me ligue de Dublin perguntando se quero trabalhar lá.
Pra ler ouvindo. A letra desta música, que resume minha vida no ano passado, tá aqui. Se você quer ler, mas não consegue entender, azar o seu! Tivira no Google Translate mermão!
* Alguns nomes foram alterados para preservar a identidade das empresas e das pessoas