Quando eu era criança morria de medo de folia de reis. Isso porque meu pai me dizia que palhaço de folia bate em crianças, uma das muitas caraminholas que me enfiaram na cabeça naquela época e que acabam por fazer parte de mim até hoje.
Meu tio avô já foi palhaço de folia e eu tinha muito medo dele também. Esses dias reencontrei tio Ninim, como é chamado. Engraçado, alegre e afetuoso como poucos neste mundo. Eu o fiz cantar vários versos da sua folia, que ainda sai pelas ruas até hoje. É engraçado pensar que durante tanto tempo tive medo de uma criatura tão adorável.
Hoje adoro a folia, mas ainda tenho um medinho. Não o medo pavoroso de antes, mas o medinho gostoso de sentir, com gostinho de infância, cheiro de ameixa fresca e gosto de banana amassadinha com geléia de mocotó. Aquele medinho que a gente busca, do frio na barriga e o trimilique que faz saltar quando um tambor soa alto pertinho da gente. Medinho gostoso, como medo do loop da montanha russa, de andar a mais de 100 km/h na garupa da moto com os braços abertos, ou de encostar naquela pessoa que a gente admira de longe.
Sei que medo não devia ser gostoso, mas essa sensação que deveria repelir acaba atraindo. Sei que o palhaço me dá medo, mas me atrai. Toca o tambor e começa os versos que lá vou eu atrás…
Minha mãe diz que é coragem que eu tenho. Coragem de mudar com uma mão na frente e outra atrás pra uma cidade onde não conheço ninguém, coragem de assumir riscos, de colocar a cara na reta pra separar briga… Coragem eu tenho muita mesmo, mas pra mim, ir atrás do palhaço não é coragem não, é medo mesmo. Medo de não sentir mais o medo e não sentir mais nada. Medo que faz eu ir lá de pertinho pra testar se ainda tenho medo. Vou atrás do palhaço, sinto o frio na barriga e sei que ainda estou viva, como estava quando era criança. Aí o medinho gostoso, já velho e conhecido, com cara de nostalgia, faz eu me sentir protegida.
Eu indo atrás do Palhaço. Foto by Nat
