Encruzilhada

Quarenta e sete centímetros, sessenta e quatro gotas de água despencando do céu, algumas dúvidas e nenhum guarda-chuva separavam as duas almas solitárias. No fim da noite, parados na encruzilhada onde os caminhos se descruzam, ela se perguntava se ele pedira a conta cedo por conta das tolices bêbadas que ela contava. Ele se perguntava como faria para voltar para casa àquela hora da madrugada.
Ele pensava que tiveram uma noite agradável. Ela estava certa de que o desagradara.
Ela acreditava que a pressa ao se despedir era uma prova disto. Ele acreditava que ela o acharia machista e bobo se se oferecesse para acompanhá-la.
Ela se sentia feia. Ele sentia frio.
Ele pensava que poderiam conversar mais vezes antes de fazer um julgamento. Ela julgava que ele não mais apareceria por um bom tempo.
Ele pensava que assim era melhor. Ela pensava que era melhor assim.
E se-pararam-se.

Composta

Tinha oito anos de idade e uma flor de papel nas mãos quando soube da morte do seu primeiro avô. Foi quando decidiu que queria ser uma canção ao invés de ser humana. As canções são imortais.

Estranhas Entranhas

A mensagem no celular que interrompeu a conversa dos dois amigos continha apenas uma pergunta trivial, um pedido quase formal de informação. Uma pergunta que já termina com aquele “obrigado” no final do texto, indicando o fim do contato antes mesmo do envio da resposta.

Ela pediu um momento ao seu interlocutor para responder a mensagem e pôs-se a digitar a informação solicitada com as mãos trêmulas e o coração na garganta. Juntou todas as letras com o zelo e a preocupação de um procedimento cirúrgico de urgência, mas não sem dificuldade em domar seus dedos que se tornaram, naquele momento, estranhamente inábeis no touchscreen do aparelho.

Após enviar a mensagem e engolir de volta o coração voluntarioso que tentava sair garganta afora, ela disse ao amigo que continuasse com a explicação. Ele obedeceu, com um meio sorriso e um suspiro de quem sabia o que a mudança nos olhos dela indicava.

À medida que as palavas saiam da boca dele, ela se esforçava para controlar o coração que ainda pulava feito um enfurecido touro de rodeio, tentando livrar-se sabe-se lá de quê. Ela sabia de quem. Aqueles olhos verdes e redondos que ela fitava com esforço para tentar continuar ali, naquela conversa interrompida, foram ficando cada vez mais embaçados, disformes, sem cor, assim como todo o resto do rosto à sua frente, que se esvaía pelos borrões em que se transformavam as linhas, os limites, lentamente dissolvendo-se e misturando-se à parede do fundo. As palavras dele, que há muito já soavam dislálicas, foram virando ecos distantes, pertenciam agora a qualquer língua tribal desconhecida, com uma entonação pitoresca e um sotaque indecifrável. As mãos dela, de dedos finos e longos, ainda trêmulas e agora frias, seguravam uma a outra tentando manter alguma estabilidade física, frente à instabilidade da alma que o tremor denunciava. Seguravam-se e transpiravam na cumplicidade de saber exatamente o que se passava, sem nada poder fazer além de segurar, ainda que isso não passasse segurança alguma. Não fazia idéia de onde teria ido parar a saliva de sua boca e o sangue que subitamente fugiu de seu rosto. Sentia-se afogada na própria respiração que não a deixava esvaziar os pulmões para tentar enche-los novamente. Seu estômago deu um nó em si mesmo, como se liderasse um protesto gástrico, em que os manifestantes vinham atrás revoltados, gritando palavras de ordem e afirmando que “a partir daquele momento, por aqui não passará mais alimento”. Mas ela já não ouvia mais protestos, sequer conversas, não ouvia mais do que as batidas de seu selvagem coração, ainda na tentativa irascível de saltar pela garganta.

Sentiu então que uma outra mão tocava as suas, veio resgatar seus sentidos novamente para o mundo ali fora. Percebeu-se, envergonhada, com o olhar vago e perdido fitando a parede branca, com a boca semi-aberta e o rosto inexpressivo, que ainda assim expressava mais do que ela gostaria. O compreensivo dono dos olhos verdes à sua frente perguntou:

– Está tudo bem?

– Sim, tudo bem.

Respiraram juntos em uma pausa que dizia mais da verdade que aquelas palavras.

– Você ainda o ama, não é?

– Do fundo das minhas entranhas.

Palavra

Fiquei uns segundos ali, presa no olhar da criatura sem sorte que escolheu me visitar justamente numa daquelas semanas em que a sombra do desalento estacionou sobre meu coração e que nada do lado de fora me inspirava qualquer entusiasmo, exceto perder as horas numa reclusão voluntária em livros de páginas amareladas. A pergunta que me fizera, talvez inspirada pelo tédio de me ver dividindo a atenção que lhe devia com um livro que já era minha companhia antes de sua chegada, me pareceu tão disparatada, que só consegui entender ao me lembrar da voracidade com que eu costumava devorar livros com teor de suspense e histórias investigativas na adolescência, quando os motivos que me levavam a abri-los eram bem diferentes dos atuais.

– Você tem vontade de pular algumas páginas quando está lendo?

Percebi com uma certa surpresa que, ao contrário da ansiedade com que me embrenhava nas histórias policiais da adolescência, em busca de pistas para desvendar os mistérios do enredo, agora eu me encontrava entretida muito mais pela sonoridade da escrita do autor, que pela história que ele estava a contar. Só então percebi como encontro em alguns trechos, em umas combinações de palavras que me soam tão belas e inusitadas, um prazer muito parecido com o que experimentava quando criança, ao deixar derreter bem devagar na boca os doces surrupiados das encomendas da minha avó. Saio garimpando em cada pedacinho de página, numa investigação minuciosa por esses trechos. Minha busca não é mais sobre o mistério da história, ou o que acontecerá com o protagonista, ou quem é o assassino no final das contas. Ela agora se dá em todas as letras, vagarosamente, por esses trechos de puro deleite, que leio e releio com a intenção sempre frustrada de decorá-los, como se assim eu pudesse devorá-los e fizesse deles parte de mim. A ansiedade às avessas da minha recém descoberta maturidade de leitora, me faz, pelo contrário, experimentar até um certo pesar, e às vezes uma inconsolável solidão quando, afinal, viro a última página.

Foi assim, percebendo o prazer com que me delicio com as improváveis combinações em figuras de linguagem, cada qual com seu sabor único, guardado no significado que dou ao ler e que fica só para mim, que me saiu do baú empoeirado de lembranças da infância a frase dita por um padre em uma dessas missas de domingo em que, às vezes sonolenta, eu acompanhava minha mãe:

“A palavra é alimento para a alma.”

Talvez justamente por na época não entender como isso poderia acontecer, esta frase nunca foi esquecida, tornando-se depois uma verdade que minha alma esfomeada jamais contestaria. Hoje, no entanto, até arriscaria a complementar: A palavra é alimento para a alma e acalento para o coração.

Andava meio cega pelas ruas, quando sentiu vontade de se desanuviar nas vistas só para conferir se estava no lugar certo. Foi quando a luz penetrou tão intensamente por seus olhos, invadindo fluida o seu cinza com todas as nuances de cores que manchucavam suas paredes de forma macia, até chegar ao centro da sua alma, doendo ela numa dorzinha tão morna e úmida, que a fez encolher cinco exatos centímetros no comprimento da sua vida. Foi quando ela fechou aquele livro e decidiu ler outra história.

Sonho

Esta noite sonhei que me deitava na relva macia, embaixo de uma castanheira. Era o que eu fazia, a despeito de todos os que me olhavam meio que de esgueira, com reprovação e desprezo estampado em seus rostos e em suas roupas limpas, passadas com todo o zelo de quem jamais se deitaria despudoradamente na relva quente que o chão cobria. Aquelas roupas tinham medo de com a relva se sujar. Mas eu? Eu não. Na relva eu me deixei deitar. Elas, em oposição, tinham coisas mais importantes a fazer, era o que suas gravatas pareciam dizer. Mas para mim o sol estava morno e brilhava pintando tudo num tom charmoso de sépia claro, como fotografia há muito tirada, aquelas de álbum bem antigo, por tanto tempo guardada, de forma que não tive outra escolha: eu, despudorada que sou, na relva me deitei. Deitei não, despenquei. Toda vez que por lá passava, não resistia, meu corpo pedia e logo pendia e com o prazer que só pode existir mesmo num sonho eu me desprendia e na relva me deixava cair de alegria: à relva eu me rendia.

E lá fiquei observando as folhas da castanheira que no alto brincavam com o vento de fazer movimento com os raios que brilhavam da mais morna luz do sol. Foi quando, pra minha inteira surpresa, vi que não estava mais só: ele veio e me presenteou com sua companhia. Virei de lado e troquei, em meu olhar, a castanheira pelo castanho claro de seus olhos e de seus cabelos emaranhados. E ficamos lá deitados, fitando um ao outro, pela eternidade que só o sonho permite existir. Quando acordei, antes de meus olhos abrir eu já sabia: não era ao calor do sol, à castanheira ou à relva macia, mas sim àquele homem que sempre, como que involuntariamente, eu me rendia.

Pras pessoas que se queixam da falta de textos de humor

– Ei calma aê! Só quero conversar com você!
– Então, eu não posso conversar…
– Por que não pode?
– Eu tenho um problema, eu tô tipo, com a boca tooooooooda bichada por dentro, tá cheio de pereba, saca? Saindo pus…
Nunca me livrei de alguém tão rápido. Vou usar sempre.