Palavra

Fiquei uns segundos ali, presa no olhar da criatura sem sorte que escolheu me visitar justamente numa daquelas semanas em que a sombra do desalento estacionou sobre meu coração e que nada do lado de fora me inspirava qualquer entusiasmo, exceto perder as horas numa reclusão voluntária em livros de páginas amareladas. A pergunta que me fizera, talvez inspirada pelo tédio de me ver dividindo a atenção que lhe devia com um livro que já era minha companhia antes de sua chegada, me pareceu tão disparatada, que só consegui entender ao me lembrar da voracidade com que eu costumava devorar livros com teor de suspense e histórias investigativas na adolescência, quando os motivos que me levavam a abri-los eram bem diferentes dos atuais.

– Você tem vontade de pular algumas páginas quando está lendo?

Percebi com uma certa surpresa que, ao contrário da ansiedade com que me embrenhava nas histórias policiais da adolescência, em busca de pistas para desvendar os mistérios do enredo, agora eu me encontrava entretida muito mais pela sonoridade da escrita do autor, que pela história que ele estava a contar. Só então percebi como encontro em alguns trechos, em umas combinações de palavras que me soam tão belas e inusitadas, um prazer muito parecido com o que experimentava quando criança, ao deixar derreter bem devagar na boca os doces surrupiados das encomendas da minha avó. Saio garimpando em cada pedacinho de página, numa investigação minuciosa por esses trechos. Minha busca não é mais sobre o mistério da história, ou o que acontecerá com o protagonista, ou quem é o assassino no final das contas. Ela agora se dá em todas as letras, vagarosamente, por esses trechos de puro deleite, que leio e releio com a intenção sempre frustrada de decorá-los, como se assim eu pudesse devorá-los e fizesse deles parte de mim. A ansiedade às avessas da minha recém descoberta maturidade de leitora, me faz, pelo contrário, experimentar até um certo pesar, e às vezes uma inconsolável solidão quando, afinal, viro a última página.

Foi assim, percebendo o prazer com que me delicio com as improváveis combinações em figuras de linguagem, cada qual com seu sabor único, guardado no significado que dou ao ler e que fica só para mim, que me saiu do baú empoeirado de lembranças da infância a frase dita por um padre em uma dessas missas de domingo em que, às vezes sonolenta, eu acompanhava minha mãe:

“A palavra é alimento para a alma.”

Talvez justamente por na época não entender como isso poderia acontecer, esta frase nunca foi esquecida, tornando-se depois uma verdade que minha alma esfomeada jamais contestaria. Hoje, no entanto, até arriscaria a complementar: A palavra é alimento para a alma e acalento para o coração.

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Uma resposta para “Palavra

  1. Isso me lembra que tenho um prato requintado preparado por um maravilhoso chef colombiano, presente de aniversário seu, lá em Cachoeiro. (adorei o seu retorno!)

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