Estranhas Entranhas

A mensagem no celular que interrompeu a conversa dos dois amigos continha apenas uma pergunta trivial, um pedido quase formal de informação. Uma pergunta que já termina com aquele “obrigado” no final do texto, indicando o fim do contato antes mesmo do envio da resposta.

Ela pediu um momento ao seu interlocutor para responder a mensagem e pôs-se a digitar a informação solicitada com as mãos trêmulas e o coração na garganta. Juntou todas as letras com o zelo e a preocupação de um procedimento cirúrgico de urgência, mas não sem dificuldade em domar seus dedos que se tornaram, naquele momento, estranhamente inábeis no touchscreen do aparelho.

Após enviar a mensagem e engolir de volta o coração voluntarioso que tentava sair garganta afora, ela disse ao amigo que continuasse com a explicação. Ele obedeceu, com um meio sorriso e um suspiro de quem sabia o que a mudança nos olhos dela indicava.

À medida que as palavas saiam da boca dele, ela se esforçava para controlar o coração que ainda pulava feito um enfurecido touro de rodeio, tentando livrar-se sabe-se lá de quê. Ela sabia de quem. Aqueles olhos verdes e redondos que ela fitava com esforço para tentar continuar ali, naquela conversa interrompida, foram ficando cada vez mais embaçados, disformes, sem cor, assim como todo o resto do rosto à sua frente, que se esvaía pelos borrões em que se transformavam as linhas, os limites, lentamente dissolvendo-se e misturando-se à parede do fundo. As palavras dele, que há muito já soavam dislálicas, foram virando ecos distantes, pertenciam agora a qualquer língua tribal desconhecida, com uma entonação pitoresca e um sotaque indecifrável. As mãos dela, de dedos finos e longos, ainda trêmulas e agora frias, seguravam uma a outra tentando manter alguma estabilidade física, frente à instabilidade da alma que o tremor denunciava. Seguravam-se e transpiravam na cumplicidade de saber exatamente o que se passava, sem nada poder fazer além de segurar, ainda que isso não passasse segurança alguma. Não fazia idéia de onde teria ido parar a saliva de sua boca e o sangue que subitamente fugiu de seu rosto. Sentia-se afogada na própria respiração que não a deixava esvaziar os pulmões para tentar enche-los novamente. Seu estômago deu um nó em si mesmo, como se liderasse um protesto gástrico, em que os manifestantes vinham atrás revoltados, gritando palavras de ordem e afirmando que “a partir daquele momento, por aqui não passará mais alimento”. Mas ela já não ouvia mais protestos, sequer conversas, não ouvia mais do que as batidas de seu selvagem coração, ainda na tentativa irascível de saltar pela garganta.

Sentiu então que uma outra mão tocava as suas, veio resgatar seus sentidos novamente para o mundo ali fora. Percebeu-se, envergonhada, com o olhar vago e perdido fitando a parede branca, com a boca semi-aberta e o rosto inexpressivo, que ainda assim expressava mais do que ela gostaria. O compreensivo dono dos olhos verdes à sua frente perguntou:

– Está tudo bem?

– Sim, tudo bem.

Respiraram juntos em uma pausa que dizia mais da verdade que aquelas palavras.

– Você ainda o ama, não é?

– Do fundo das minhas entranhas.

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