A Princesa e a Bruxa

– Que bonito seu desenho! Quem é essa princesa?

– É você! – respondeu com um sorriso largo a menininha meiga à minha frente – Agora eu vou colorir!

E sem vacilar, sem olhar para o lado, imbuída de sua missão com grande firmeza, escolheu as cores numa convicção inabalável: pintou a grama de verde, o vestido de rosa, o sol e a coroa de amarelo, as nuvens de azul, o cabelo de vermelho e… Opa! franziu a testa, ergueu a cabeça com uma contradição estampada no rosto e fitou meus cabelos como se estivesse tentando calçar mentalmente um elefante com o sapatinho de cristal da Cinderela. Depois de alguns segundos de tensa observação, deu de ombros, abaixou novamente a cabeça e continuou a colorir com a mesma convicção anterior, como se dissesse: “é, não tem jeito, vai ter que ser assim mesmo”.

Princesas são tradicionalmente loiras (vide Irmãos Grimm, Perrault, Basile, Andersen, etc). Mas não é a mudança, agora muito constante, na cor dos meus cabelos que anuncia que não me cabe mais esse papel, papel que já gostei tanto de interpretar. A vida é assim, uma hora a gente perde a coroa pra pegar o caldeirão. Só lamento ainda não ter uma herdeira dos meus cabelos dourados de outrora pra ocupar meu antigo trono do mundo das fadas.

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Falta até título

Acordei sentindo uma falta
daquele completar gostoso de corpos
e do arrepio que me assalta
quando me perco no tempo do abraço
do único que me acalma
e que me deixa com a certeza
de que seu lugar é aqui do meu lado
certeza de que sofro mesmo
desse mal irremediável
que comigo segue pra onde quer que eu ande
agora não tem mais jeito:
tu me manques.

Imagem

Abri a porta do consultório e quem estava do lado de fora não era a paciente agendada, tampouco consegui encontrar seu rosto numa rápida pesquisa em meu arquivo mental de pacientes em atendimento.

– A senhora deve estar procurando a Mara, né? – conclui.

– Não, acho que é você mesmo que eu to procurando, me falaram que era uma novinha de cabelo vermelho.

Bacana, pensei. Agora sou oficialmente ruiva.

Incêndio

Meu coração devia ter um aviso:
Perigo!
Material altamente inflamável!
Pois a proximidade de certos componentes
se mostra extremamente não recomendável.
Só de chegar perto a desordem é instantânea:
Ele entra imediatamente
em auto-combustão espontânea.
Arde e queima tudo a volta
não tem bombeiro, mangueira ou hidrante
que controle sua revolta.
O estômago, por sua vez,
sempre muito zeloso e sensato,
pra tentar controlar a situação
se congela todo no ato.
E fica essa confusão
contradição de sensações térmicas
pra qual ainda não encontrei solução
nem em recomedações médicas.
Suo, tremo, me arrepio, tudo de uma só vez
e quem vê de fora essa insensatez
tenta arrumar no tempo, explicação:
– Tá calor, né? Tanto sol e nenhum vento!
Quem me dera fosse uma simples insolação,
logo penso.
Todo o calor do sol, em sua maior concentração,
isso eu garanto,
nem se compara com a quentura que faz aqui dentro.

Vírgula

De uns tempos pra cá já não consigo escrever coisa alguma direito porque qualquer coisa que escrevo de relatório a recado sai tudo atropelado como se esse monte de palavra pulasse sem permissão do meu peito de forma desenfreada do mesmo jeito que acontecia quando eu era uma criança insone e afobada que tentava em vão contar carneirinhos na madrugada e sempre passava a noite inteira acordada e impotente diante da manada revoltada e desobediente que se negava terminantemente a ficar em fila e pulava a cerquinha branca em debandada correndo todo mundo junto de uma só vez e eu lembro disso agora e me pergunto que tipo de criança não consegue controlar carneirinhos em sua própria mente e que tipo de adulta não consegue organizar seus pensamentos de forma decente com palavras ordenadas uma de cada vez e fico desorientada vendo que desaprendi a usar a vírgula sendo que fui ensinada de que a vírgula serve pra gente poder tomar o fôlego no meio de uma frase e no fundo eu bem sei que se não consigo mais tomar fôlego no meio dessa minha fase é porque foi sem fôlego que ele me deixou no fim desse texto tão longo que eu também sei que nem cabe mais vírgula e já passou da hora de um ponto.

Teletransporte

Esses dias alguém entrou no ônibus com o perfume de Rio das Ostras. Foi só colocar os fones de ouvido e fechar os olhos que eu estava feliz da vida lá de novo.

E eu juro que não era fedor de cecê, gente. Era perfume bom demais da conta.

Taksim

O que vocês sentem quando escutam essa música? – pergunta a professora.

ÓDIO! – responde uma colega para fazer graça, entoando em sua voz todo o sentimento que ela afirma ter em sua resposta.

Essa música é um lamento. Gostaria que antes de dançar, vocês sentissem ela como se estivessem pensando em algo que vocês queriam de ter, mas não tem.

Não gosto desse sentimento – respondo – é triste.

Tá, não precisa fazer como uma coisa triste… pensa: “ah, como seria bom se eu tivesse… tivesse...

… aqueeeela roupa da Ju Marconato?” – respondo, também pra fazer graça, citando o desejo de quase todas as presentes na sala, desejo que eu mesma definitivamente não compartilho… prefiro as roupas da Zoe Jakes.

Isso! Ou aquela viagem pra Paris… Ah se eu tivesse…

Aceito a tarefa e fecho os olhos para sentir a música, mas o que aparece não tem forma de roupa alguma, nem mesmo emoção de viagem. O lamento soa dentro de mim como minha própria voz perguntando:

Por que você é assim?

Ao que tenho como resposta:

Eu não sei.

Antes de me dar um beijo e ir embora.

Mas ela tinha razão quando disse que isso não precisa ser triste.